O ano era 1997. 4 de junho, para ser mais preciso. Fernando Henrique Cardoso, então presidente da República, havia conseguido aprovar no Congresso Nacional a fatídica emenda constitucional nº. 16, que permitia que ocupantes de cargos eletivos no Poder Executivo, de todos os níveis, fossem reconduzidos (reeleitos) a outro mandato sucessivo. Com isso, em outubro de 1998, FHC seria o primeiro presidente brasileiro a ser reeleito para mandatos consecutivos na história da República.
Naquela época, um sindicalista que, frustrado, havia concorrido a dois pleitos eleitorais para a presidência (1989 e 1994), sendo derrotado em ambos, cujo nome era Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, um dos poucos realmente de esquerda existentes no país naqueles tempos e que fazia ferrenha oposição ao governo FHC, havia esbravejado contra a aprovação dessa emenda. Como a arapongagem não é novidade no Brasil, já naquele 1997, a Folha de S.Paulo havia publicado notícias de que investigações baseadas em grampos telefônicos davam conta de que um certo governador de um estado brasileiro pagara aproximadamente US$ 200 mil para que 4 deputados votassem a favor da emenda da reeleição.
Investiga daqui, investiga dali, nada foi, entretanto, comprovado. O tempo passou e, em 2002, FHC tentou emplacar seu candidato à presidência da República, o ex-Ministro da Saúde e Senador José Serra. Não conseguiu. Lula foi eleito no segundo turno com 53 milhões de votos, 61% do total. De oposição sistemática, o PT passou a governar o país, usando de expedientes nada ortodoxos, talvez menos ortodoxos ainda que os do partido ao qual antes era oposição. Lula, o presidente, que poderia simplesmente propor a revogação da emenda constitucional que permitiu a seu antecessor ser reeleito, nada fez. Em 2006, disputou a reeleição, quando foi eleito no segundo turno, novamente, com 58 milhões de votos válidos e com a promessa de transformar o Brasil em um grande canteiro de obras, embora nos quatro anos anteriores a nação tivesse um crescimento pífio, em um cenário internacional extremamente positivo.
Lula, antes oposição, agora governo, simplesmente ignorou todo o histórico de lutas que o Partido dos Trabalhadores teve no passado, para garantir a cláusula republicana e democrática da alternância do poder. Disputou novas eleições pois, se o anterior pode, ele também poderia ser reeleito.
Hoje, 2009, o Brasil anda às voltas com um novo capítulo dessa série. Parlamentares se mobilizam por propor à nação um plebiscito que permita ao Presidente da República disputar um terceiro mandato. Lula, ecoando as vozes que foram ouvidas nos corredores do PT, vem dizendo que não haverá disputa de outro mandato. Pelo menos até alguma emenda nesse sentido ser apresentada e aprovada – com ou sem mala preta – nos bastidores do Congresso Nacional.
De certa forma, temos que aguardar para ver se essa proposta vingará. Se Lula puder disputar um terceiro mandato, ele o fará, com a mesma inescrupulosidade que o fez quando disputou a reeleição em 2006. Se as regras do jogo permitirem, ele vai jogar conforme elas, doa a quem doer, haja o prejuízo que houver à democracia republicana que o Brasil abraçou no passado e agora o faz desde 1988. Seria um tremendo retrocesso institucional se houver essa possibilidade. Contudo, exemplos (maus, por sinal), Lula tem aos montes aí fora: Fidel Castro, Hugo Chavez, Evo Morales. Todos amiguinhos vermelhos do Presidente da República que outrora condenava as coisas que hoje ele defende.