Tem gente que acha que é implicância, mas na verdade o que mais me preocupa em relação à imprensa brasileira é o quanto ela se rende a alguns “fenômenos” que aparecem de vez em quando por aí. Desde a contratação de Ronaldo pelo Corinthians, a imprensa tem insistentemente destacado o atacante em todas as mídias possíveis e imagináveis. Em sua coluna de 8 de março, o ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, sob a perspectiva do leitor, criticou o jornal pela superexposição de Ronaldo em suas páginas. De acordo com a coluna, dos 84 dias que se passaram desde a contratação de Ronaldo até o dia 6 de março, nada menos que 70 imagens do jogador haviam sido divulgadas. “Treinando, brincando, assistindo jogo, cortando cabelo, de frente, de costas, de lado.
Em muitas, a intenção de ressaltar seu sobrepeso era evidente. Referências à sua condição física são frequentes, nem sempre de bom gosto, com expressões como ‘reforço de peso’ e ‘volta redonda’”, diz o ombudsman.
Isso porque estou falando apenas de um dos muitos meios de comunicação existentes em nosso país que, graças ao bom Deus, goza de plena liberdade de imprensa. Televisão, rádio, internet, revistas… Todas as mídias, desde que Ronaldo chegou à Marginal, s/nº (endereço do Corinthians), só falam nisso, incansavelmente, como se não houvesse outros jogadores e outros clubes de futebol no Brasil. Como se não bastasse, o humorístico Pânico, da RedeTV!, ao exibir um torcedor dizendo “Ronaldo, brilha muito no Corinthians”, iniciou uma febre nacional. Por todos os lados, é frequente ouvir alguém dizendo o nome do atacante, nas mais diversas situações.
Acreditem os pipoqueiros ou não, no último domingo, quando fui, depois de muito tempo, ao cinema, assitir a Velozes e Furiosos 4, no meio do filme alguém de uma das primeiras fileiras da sala, disse em alto e bom som: “Ronaldo”.
A Folha de S.Paulo, hoje, trouxe uma notícia que, simplesmente, não me agradou. Na próxima sexta-feira (15), Ronaldo será sabatinado por entrevistadores e leitores do jornal. A sabatina da Folha, que ocorre com frequência, já entrevistou magistrados, senadores, deputados, artistas diversos, canditatos à presidência da República, a governos de estados e prefeitos de grandes cidades. Agora, rende-se ao fenômeno Ronaldo, e o entrevistará ainda esta semana. Não sei o que Ronaldo poderá acrescentar à sabatina da Folha, ou se, ao ser sabatinado, ele alcançará o nível intelectual e a construção de ideias que outras personalidades que participaram da iniciativa outrora apresentaram.








