Essa semana conversando com meu patrão, ele disse, Posso recitar algo para vocês? Sim respondemos nós, ele disse: e agora, José?
Nós rimos por um instante, e voltamos a conversar…
Mas dai vindo embora do serviço e passando pelo esportivo (que um campo de futebol de passos), como sempre faço eu comecei a pensar e achei interessante compartilhar meu pensamento com vocês.
Quem nunca ouviu, recitou, ou odiou esse poema, sim isso mesmo, odiou.
Quem quando criança não teve que recitar o poema em meio à sala, e no meio do poema quando tudo parecia estar bem, te da um branco? Um
breve silencio e um segundo depois, o vexame, todos rindo de você? Por isso o ato de odiar o poema.
Eu particularmente sempre critiquei o modo que as escolas, incentivam os alunos a entrar no mundo da literatura, pelo simples fato, dessa terapia ser a terapia de confronto,
analisando se bem, uma criança que está em construção de sua personalidade, ser confrontada? pode parecer ridículo, mais analise, quando criança o que mais te dominava? não seria a vergonha? e quando se tem um vexame o que tende a acontecer?
Vou narrar uma historia pessoal.
Quando menor (de idade), minha professora passou a seguinte tarefa, decorar o poema (o pardalzinho), terminei o poema em “carinhos”, sim me deu um branco, daqueles que nem se assoprarem você lembra, todos começaram a rir de mim, eu fiquei com uma vergonha, e por isso, tomei raiva de “poemas de pré infância”, nunca mais quis gravar um, e perdi pontos por isso.
Pois bem, “não se interessa em algo, se esse algo o confronta”, Tenho esse pensamento comigo.
“Em meu modo de pensar, muitas pessoas não se interessam por literatura, porque, na infância tiveram algum confronto por meio dela, eu particularmente, odeio recitar em publico, faria isso se fosse um poema de amor, pra alguém que gosto muito, e nada mais.”
Bom, pra terminar deixarei os dois poemas que daqui citei. com um breve conselho, “Desligue a televisão e leia um livro”
Pardalzinho
O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!
E agora, José?
A festa acabou,
A luz apagou,
O povo sumiu,
A noite esfriou,
E agora, José?
E agora, você?
Você que é sem nome,
Que zomba dos outros,
Você que faz versos,
Que ama protesta,
E agora, José?
Está sem mulher,
Está sem discurso,
Está sem carinho,
Já não pode beber,
Já não pode fumar,
Cuspir já não pode,
A noite esfriou,
O dia não veio,
O bonde não veio,
O riso não veio,
Não veio a utopia
E tudo acabou
E tudo fugiu
E tudo mofou,
E agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
Seu instante de febre,
Sua gula e jejum,
Sua biblioteca,
Sua lavra de ouro,
Seu terno de vidro,
Sua incoerência,
Seu ódio – e agora?
Com a chave na mão
Quer abrir a porta,
Não existe porta;
Quer morrer no mar,
Mas o mar secou;
Quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
Se você gemesse,
Se você tocasse
A valsa vienense,
Se você dormisse,
Se você cansasse,
Se você morresse…
Mas você não morre,
Você é duro, José!
Sozinho no escuro
Qual bicho-do-mato,
Sem teogonia,
Sem parede nua
Para se encostar,
Sem cavalo preto
Que fuja a galope,
Você marcha, José!
José, pra onde?
