“Tio, me dá um trocado?”, frase comum de ser ouvida nas ruas de São Paulo. Não só de São Paulo, mas de qualquer lugar do Brasil e e tantos outros do mundo, já que a miséria, infelizmente, é generalizada. Em resposta, alguns dão com desconfiança, pensando se o garoto ou garota, homem ou mulher, vai de fato usar o trocado para comprar comida e saciar sua fome. Outros dão liberalmente, como se um ou dois reais que lhes saem dos bolsos não fizessem falta e que, por ter ajudado, o que faria o recebedor do dinheiro com ele não lhe importasse mais. Outros, ainda, sequer dão alguma coisa, passando ao largo e não refletindo sobre a real ou eventual necessidade de quem vai às ruas perambular à procura de algo para comer.
Numa dessas passagens de pedidos e dinheiros, certa feita, me deparei com um garoto franzino, de seus, no máximo, quinze anos de idade. Estava ele sentado no chão, em um dos tantos terminais de ônibus da capital, e pedia aos transeuntes que lhe dessem algo. Não, ele não pedia dinheiro nem sequer um trocadinho que seja. Pedia algo para comer, pois estava com fome. Enquanto estava na fila, percebi que a todos que ali chegavam aquele garoto, maltrapilho e maltratado pela vida, pelas oportunidades de que ela lhe privara, pedia um lanche, um salgado, alguma coisa para comer.
A reação das pessoas diante dessa situação era das mais diversas: uns olhavam, outros nem davam bola, outros se confrangiam pela situação do menino. Uns o tinham por usuário de drogas, outros diziam que não. Porém o bate-papo das pessoas não mataria a fome do menino, se realmente ele a tivesse.
Instantes depois, enquanto observava aquela argumentação dos populares sobre os prós e contras em ajudar o garoto, eis que surge uma senhora, possivelmente de barriga cheia. Ela traz nas mãos um saquinho, e entrega ao pobre menino. Ao abrir o invólucro, o garoto saca dele uma coxinha e a devora como se não mais houvessem coxinhas na terra. Depois de comer, à vista de todos na fila, agradece à senhora, porém se queixa que ainda está com fome.
Aquele menino saiu dali. Para onde foi, não sei. Mas sei que, para onde eu fui, me pus a pensar sobre aquela situação. Pensei em quantas pessoas têm pão com fartura em sua mesa, enquanto outros tantos têm fome e nada mais que migalhas para comer. Num país de riquezas tantas, não é aceitável que no século 21 ainda tenhamos que conviver com situações de miséria e degradação, que levam garotos a mendigarem o pão, enquanto deveriam estar na escola. Diante de mim, o paradoxo: a fome do menino e a barriga cheia daqueles que, podendo, nada fazem para ajudá-lo.





